2016-12-07

A SAGA DA ALZIRA – 5


Dinamite
assalto
e dentadura






Antunes Ferreira

N
unca tinha pensado nisso, a sua especialidade era outra, mas a verdade é que o homem põe e Deus dispõe. Não é que Deus estivesse muito interessado no “negócio”, apesar de ser omnipresente e por isso estar atento a tudo. E além do mais não dormia. No entanto o Jaquim Braboleta tinha quase a certeza que Ele não dormia mas de vez em quando passava pelas brasas... Isto dizia o Quim, embora o forte dele não fosse teologia – era mais batota.
O Braboleta, ai, ai...


N
essa manhã, recuperado de boa parte da dentadura imolada aos punhos do campomaiorense (que aliás e como atrás se disse dava pelo nome de Chico Passarinho), estava o Jota no Retiro do Meio Chão tomando o pequeno-almoço – café com leite, mais carregado o primeiro, e uma sandes mista de queijo e fiambre com muita manteiga – quando entrou o Braboleta. O nome dele era Sinfrónio, mas como parecia que era mais pra lá do que pra cá era sempre o Braboleta, ai meninos, parecia mesmo uma braboleta a dar a dar… ai, ai.


A
ssentou-se ao pé dele, pediu ao Segismundo uma bica cheia em chávena escaldada e, de repente, perguntou-lhe se sabia o porquê do café se chamar bica… “Porra! Que sacana de prégunta! Sei lá, eu não sou muito de geografia… “ E o Braboleta “Tu o que és é uma besta-quadrada!” e riu-se. O Segismundo, homem prevenido vale, pelo menos, por dois ou mesmo três, quiçá quatro, retirou os copos vazios do balcão, por causa das moscas, e avisou que não queria ali merdas.

A maternidade das bicas...


C
ompanheiro está sossegado, estamos só a falar; e já agora sabes tu porque se chama bica? O balconista também não sabia. Vai daí o Braboleta explicou que o senhor Adriano Telles, que vivera anos no Brasil, em mil novecentos e troca o passo abriu um café “A Brasileira do Chiado” e mandou vir uns sacos de café moído, pois era moda no Paris da França beber café e como vira fazer nas terras brasileiras diluíra o pó em auga quente, passara-o por um saco de pano como filtro (tinham-lhe também dito que uma peúga sem ser lavada ainda era melhor, dava-lhe um gosto especial talvez do chulé…) e servira-o aos clientes, recomendando-lhes que provassem a nova bebida que era porreira e…


O
uça lá ó sôr Telles, porreira – o caralho. Vá-se foder com ela que é amarga como um quilo de fel!!! Adriano, desanimado, falou com o filho que lhe explicou que era preciso botar açúcar para o café se beber. E fez-lhe uns cartões para pôr em cada mesa: BEBA ISTO COM AÇÚCAR. B I C A. Por isso ficou bica. O homem ficou muito agartecido ao filho. E mais ainda ficaram os clientes. Segismundo ainda pensou em emendá-los. Mas, com malta desse tipo era melhor estar caladinho e deixar-se de ensinadelas. Por isso correu o fecho ecler dos lábios. 

Uma golpada em tamanho grande...


N
a rua as obras prosseguiam apesar da chuva que viera para ficar. Bátegas varriam homens e máquinas, e o barulho atormentava aqueles mais audazes que arrostavam com o temporal. No Meio Chão tirando os dois comparsas, o Segismundo e a Dona Filomena gerindo as suas panelas não havia vivalma. Ambiente propício para conspirar. “Jota já pensaste numa golpada em tamanho grande?” Pintarolas não tinha pensado, aliás pensar cansava muito e dava cabo da mioleira e portanto não pensava. Mas, mesmo assim, préguntou “golpada em grande? Homessa?!”


B
raboleta olhou em volta, ninguém!, com dizia o gajo das barbas no filme portuga que volta não volta passava na televisão. “ Tenho mais dois compinchas que já alinham…” Jota, intrigado “mas alinham em quê?” Quim respondeu-lhe “schiu, fala baixo, estamos a preparar um assalto à noite a uma caixa do Multibanco, não digas nada, e precisamos de mais um gajo; lembrei-me logo de ti. E os outros estão de acordo.”


J
á temos todo o material preparado. Primeiro pensámos num tractor, mas dava muito nas vistas. Escolhemos então o dinamite. Broboquins, brocas, martelos, alicrates e esses aviamentos está tudo nos trinques e capuchos para as cabeças bem como luvas por causa das impressões degitais. E uma carrinha para nos pormos ao fresco depois de termos o pilim. Vai ser um sucesso, menino, um sucesso!”
Desconhecem-se os autores...
E entusiasmava-se "E depois a TV, a rádio, os jornais: foi assaltada mais uma caixa de Multibanco, etc, etc, os assaltantes puseram-se em fuga, bla, bla, bla, desconhecem-se os autores, o caso foi entregue à Polícia Judiciária e etc, etc." Já viste? 


C
aramba! Pintarolas quase saltou da cadeira e ia entornando o café com leite “tu estás choné da cuca! A bófia deita-nos a luva, vai tudo pró xilindró, estamos fodidos, apanhamos uma porrada de anos à sombra, nem acabo de arranjar a puta da boca. É tudo prejuízo! Nem pó!” Braboleta não desarmou “tenho um primo que é polícia na esquadra da zona da ATM que escolhemos ou lá como se chama essa porra, o gajo está de serviço na altura do golpe, faz orelhas moucas e já está. Pensa bem. É uma porrada de caroço! ”Respondes-me amanhã, tá certo?”

A
 cheta roubada, a corrupção convencem muito “boa  gente”, principalmente banqueiros padres e políticos, e o Jota Pintarolas, depois de muito matutar na proposta, decidiu ir no golpe. Se fosse acabar a ver o Sol aos quadradinhos não seria de todo mau: casa, cama, morfos e saídas aos fins-de-semana por bom comportamento não lhe soava muito mal. De resto, quando saísse temporariamente ainda podia dar umas pinocadas com a Jaquina e durante as visitas ela iria trazer-lhe uns maços de cigarros, uns chocolates e talvez uns bocados de erva. Nada mau. Isto, claro, se as coisas dessem para o azar…

... que nem um veado do Marão


S
e o “negócio” corresse bem entrava-lhe um rico cacau no  bolso, nos bancos nada, estavam mais tesos do que um carapau frito ou do que ele… Na parte da tarde do dia seguinte voltou ao Meio Chão e ficou à espera do Braboleta. Entretanto vieram a Alzira e as outras que o olharam de viés. Começaram a cortar na casaca de uma porrada de malta, o costume. “Já sabem que a mulher do coronel Sarzedas pôs-lhe uma armadura de cornos que nem um veado do Marão?” E a menina Hortênsia “é no que dá um velhadas casar com uma gaja nova… “Não senhora, ajuntou a Dona Alzira, “diz o ditado que homem velho com mulher moça dá filhos até à poça…” Carrada de putas. Não era ele que voltaria a meter-se com elas, poderia chegar o Passarinho e adeus dentadura nova.



2016-11-30



Antunes Ferreira

P
ode acreditar senhor Ezequiel é ouro de lei, 19,2 quilates como manda a lei portuguesa. O que está propor é uma ninharia. Se eu não precisasse, não vinha à sua casa pôr este cordão no prego. Foi-me dado pela minha madrinha de Viana…


Ó
 mulher cala-se praí, estou farto de a ouvir! É pegar ou largar, o preço que lhe ofereço é absolutamente justo e os juros até são baixos. Se quer consultar outro meu colega vá ter com ele. Casas de penhores são o que não falta, mais do que uma em cada bairro. A guerra deu cabo da economia e ainda que não tivéssemos entrado nela, as coisas ressentiram-se. É ver as estrangeiras que fugiram dela e vieram para cá mostrar as pernas na pastelaria Suiça do Rossio… 
Senhas do racionamento



E
rmelinda recolheu o cordão de ouro de lei oferecido pela sua madrinha de Viana do Castelo, sentou-se num banco da avenida e ficou a pensar no que tinha dito o Ezequiel dos penhores. Portugal salvara-se dos horrores da guerra porque o homem do leme era o Senhor Presidente do Conselho com o auxílio de Nossa Senhora de Fátima. Havia, é claro, bichas para o pão, para o açúcar para o petróleo, para o azeite, para o carvão, mas mesmo assim, graças a Deus, a gente ia vivendo.


E
rmelinda dos Santos Gomes era mulher a dias em quatro casas, mãe de dois casais tinha por marido Manuel Gomes assentador de tacos de madeira para soalhos, que ganhava à hora para o patrão João Gonçalves, o Maneta, que por isso mesmo já não exercia a profissão. Fora ele que ensinara o Gomes a arte e hoje do salário deste último comia uma percentagem, coisa para não deitar fora ou aventar pois era alentejano.


O
s tempos iam apertados, os casais andavam na escola primária, os mais novos e na técnica, os mais velhos. Corria o ano da graça de 1946, a guerra terminara em 45 e o povo olhava para Espanha, ali ao lado, lambendo as feridas da guerra civil que deixara nuestros hermanos a comer pão escuro com cebola e a fumar pitillos de barbas de milho enroladas em papel de jornal. E usavam alpergatas de sola de pano… Ali havia fome e o contrabando para lá era um negócio muito rendoso.
Um eléctrico aberto frente ao Eden


U
m eléctrico aberto descia a avenida da Liberdade (era só o nome…) mesmo em frente do Eden e uns catraios iam pendurados no estribo traseiro até que o pica-bilhetes os viesse enxotar. Aqueles não tinham nem fome nem problemas ou se os tinham já se haviam habituado a eles e nem precisavam de ir pôr no prego o cordão de ouro de lei que a madrinha de Viana do Castelo lhe oferecera como prenda de casamento. Cordão ou arrecada. Para empenhar tanto fazia.


D
escansaria um pouco e em seguida iria ao judeu Jacob Levy que emprestava dinheiro a juros altíssimos e aceitava quaisquer objectos como garantia. Era uma espécie de casa de penhores, mas à socapa, por baixo da mesa não fosse dar-se o caso de um fiscal da Intendência-Geral de Abastecimentos, recém-criada, lhe bater à porta e… estava o caldo entornado. Só que o Levy morava num terceiro andar das Escadinhas do Duque e teria de palmilhar muita calçada para lá chegar.

O dispensário de Alcântara 

M
as, tinha de ser. A mais velha, Rosinha, estava mal, mesmo muito mal, o médico era caro, mandara tirar uma radiografia no dispensário de Alcântara, era mal dos pulmões, o tratamento sairia caríssimo só em medicamentos e talvez fosse necessário ir para o  Sanatório das Penhas de Saúde dos Ferroviários e que ficava na serra da Estrela. Mais despesa, mais abrir os cordões a uma bolsa que só estava cheia de… cotão. Maldita tuberculose, chamada a ceifeira de negro, impiedosa, mortal. Portanto, só os penhores.


E
stava Ermelinda nesta canseira de pensamento quando chegou  o seu homem numa corrida louca a deitar os bofes pela boca. “Credo Manel, vens esbaforido! Senta-te aqui ao é de mim, sossega e diz-me o que se passa! Caiu o Santo António do altar? Quebrou-se-lhe a bilha?” E o marido, ansioso, “Já foste pôr a arrecada no prego?” Ermelinda olhou-o de alto a baixo “ainda não, mas vou de seguida…” O Manel arreganhou a cepa “Porra! Ainda bem! Nem pensar! Não vais!”

Há horas de sorte!!!


E
le devia estar louco, pensou Ermelinda, tinha de ir para Rilhafoles. .. “Mas, que raio de trangalomango te deu? Enlouqueceste?”. Manuel começou a rir à gargalhada “Saiu-me a sorte grande! Saiu-nos a graúda! A graúda!” Entre o espanto e a dúvida ela perguntou-lhe o que estava ele a dizer? E o marido contou-lhe que na manhã desse dia tinha tido uma fezada e com os magros escudos da féria tinha comprado meio bilhete da lotaria ali no Largo da Trindade a um cauteleiro que usava um chapéu-de-chuva carregado de cautelas “há dias de sorte!” E houvera. Fora à Misericórdia ver o sorteio. Depois de andar à roda, ouvira o pregoeiro: “Primeiro prémio - Dois mil setecentos e trinta e oito; e o outro pregoeiro: “Primeiro prémio: Mil contos! Dois mil setecentos e trinta e oito – Mil contos!” Era o seu número: Meio bilhete, metade: 500 contos!


A
 Rosinha ficaria curada custasse o que custasse. Mudariam da barraca para uma casa decente com casa de banho nas Avenidas Novas. Os putos iriam para a universidade. Talvez comprassem um carrito, pequeno, mas em primeira mão. E sonhos, comprariam sonhos que eram baratos como as panelas da Feira Popular E ainda guardariam algum na Caixa. Quinhentos contos! Quinhentos! Era um ror de massa...










2016-11-24

A velha
e o cão


Antunes Ferreira


O
 tamanho do cão era pelo menos duas vezes o da velhinha que o segurava pela trela enquanto ele ia cheirando aqui e ali a fim de encontrar o local ideal para fazer as suas necessidades e marcar o seu território. Tranquilamente, sem esticar a correia, o animal parecia guiar a senhora embiocada de negro. Na mão esquerda trazia um chapéu da chuva e em ambas luvas igualmente pretas. Nunca chegarei a saber porquê mas pareceu-me tirada de uma tela de Henry Jones. E nem sou particularmente adepto da escola inglesa do século XIX

E
u estava numa Repartição das Finanças para pagar um imposto de que me esquecera e por isso acrescido da multa correspondente. O número que tirara da máquina distribuidora de senhas ainda vinha longe, acabara o livro policial que trouxera como entretenimento e agora mirava através da vidraça a cidade a secar. Parara de chover há pouco mais de uma hora, mas de acordo com os meteorologistas as nuvens negras – para eles cúmulo-nimbos – as cargas de água voltariam a qualquer momento.
O que tu queres é ver...



S
entado num dos bancos pré atendimento um casal tipo provinciano, a senhora tricotando placidamente (um casaco de malha, um cachecol, um suéter?), ele acabando de ler o Correio da Manha que trouxera do táxi (“as gordas, eu não sou de grandes leituras”) e ela pensando enquanto dava às agulhas (“o que tu queres é ver as gajas quase nuas, os homens são todos iguais…”), “Ó mulher, isto ainda demorará muito?” “Está para lavar e durar, temos o 187-D e no quadro ainda vão no 89-B” “Devíamos ter trazido uma bucha, é o que é… homem prevenido vale por dois”



A
 senhora idosa e o cão pararam na beira do passeio, como se na rua em frente houvesse passadeira para peões; mas não havia. O bicho deve ter ganido, apenas o pressupunha, o vidro, a distância e o tráfego impediam-me de o ouvir. E que trânsito! Filas enormes, veículos quase encostados uns aos outros, piso escorregadio em paralelepípedos, uma manteiga, e gente, muita gente anónima numa rua desumana salpicada de charcos acabados de chover.

Uma bizarma carregada de tijolos



F
oi então que reparei que a senhora era cega e o cão o seu guia. E ainda que ela pretendia atravessar a rua sem ser na passadeira, ao que o cão se opunha; mas era teimosa e avançou arrastando o animal que fincava as patas no asfalto. À frente da fila do trânsito – a rua era de sentido único – vinha um camião carregado de tijolos, uma bizarma de cabine cor do Inferno. Sobressaltei-me e corri para a rua: a velha ia ser atropelada. E o cachorro também.

Um gigante de boné vermelho


U
ma chiadeira tonitruante de travões, o condutor saltou da cabina e pegou no braço da senhora levando-a cuidadosamente para o passeio do lado de lá da rua. O cão seguiu-os com a trela de novo lassa. Tudo parecia ter terminado bem não fora o coro de impropérios vindos dos diversos veículos que seguiam o camião “filho da puta, cabrão, tiraste a carta a quem?, bandido quase me matavas!” e por aí fora. O motorista era um gigante com dois metros ou coisa que valesse, boné vermelho, todo músculos, barba de três dias.


D
irigiu-se calmamente ao condutor do primeiro carro que ao vê-lo avançar tentou levantar o vidro da janela, mas o matulão deitou-lhe a mão impedindo-o de o fazer, e sem levantar a voz “ Foi o senhor que chamou qualquer coisa que não ouvi bem à minha falecida mãezinha?” O cavalheiro do carro não disse nada – mas ficou branco. Voltando-se para o resto da fila, repetiu a pergunta. Respondeu-lhe o silêncio.



F
oi na altura que se ouviu uma voz baixinha vinda do passeio “És tu, Alfredinho?” O matulão virou-se e de repente avançou para a velhota “Ó Dona Lurdes, nem a conheci”, abraçou-a carinhosamente e deu-lhe dois sonoros beijos. “Sabes, Alfredinho, depois de tantos anos a tua voz encorpou-se mas continua a mesma…” Em dois minutos combinaram encontrar-se, “minha querida Dona Lurdes, o trânsito está fo…, difícil…”



V

oltou para a cabina. E a Dona Lurdes adiantou-se um pouco para atirar um beijo de despedida; um chico esperto, impaciente, carro modelo top, farto de esperar, acelerou, ultrapassou a fila, acertou na velha, passou-lhe por cima e  fugiu. Ela ficou enrodilhada no asfalto, com um ribeirinho de sangue a correr. Estava morta. Esmagada. O cão uivou. Alfredinho voltou a saltar da cabina,

E antes que cobrissem o corpo...
e antes que cobrissem o corpo, ajoelhou-se junto dela, pegou-lhe na mão que perdera a luva e beijou-a repetidas vezes. Recomeçara a chover e os pingos grossos da chuva misturaram-se com as lágrimas grossas do gigante “Era a minha professora da terceira classe…”  

2016-11-18

A SAGA DA ALZIRA – 4


Um funeral à maneira


Antunes Ferreira


H

avia uma explicação para a ausência das tertulianas do Retiro do Meio Chão aquando da visitinha do Pintarolas, aliás frustrada (visitinha que poderia ter tido consequências muito mais graves, mas não tivera felizmente para o rapazola). Às três componentes efectivas juntara-se uma quarta ad hoc, a saber: a Dona Alzira, a Dona Ester e a Menina Hortênsia  a Dona Leocádia – que ainda não conheciam, mas que por vezes aparecia; era porteira do 28 da Rua de Baixo, já tendo completado 72 anos e considerava-se solteirona militante – tinham ido ao funeral dum compadre da Dona Ester.



“F
oi um enterro muito bonito, não foi?” perguntava no dia seguinte, já no Meio Chão, a Dona Ester, que apesar de ver aproximarem-se os 94 anos adorava tudo o que metesse urnas, paramentos, gatos-pingados e etc. “Foi sim senhoras”, acudiu a Dona Filomena que acabava de lavar panelas, tachos e restantes itens da parafernália instrumentista-culinária e que também participara nas cerimónias funerárias pois era prima afastada da irmã duma tia da madrinha da prima duma comadre da prima-irmã da viúva do falecido, todos oriundos do falecidíssimo Estado Português da Índia. A Dona Filomena não era goesa, era apenas por amizade.


A
 única chatice fora a partidela da roda da carreta, o caixão e o morto estiveram à biquinha de cair, não fora o gato-pingado que lhe deitou a mão, o Zé Marreco que fazia de Mestre das Cerimónias, cagou-se todo que eu bem o cheirei, regougou a Dona Ester, o Chico da peixaria comentou entre dentes “aqui há peixe com fénico”, e a Dona Ernestina do Salão de Estética Unissexo sacou o abanico da mala a tiracolo, “aqui perto deve haver uma retrete cheia de merda.” O Marreco disfarçou, tirou do bolso do colete um canivetinho e voltando-se para a Dona Ernestina disse na brincadeira “Ai, qu’eu capo-a…” A coisa, felizmente, ficou por ali.  


Melquior, Baltasar e Gaspar


O
 Segismundo ficara no Retiro, alguém tinha de trabalhar, para o ripanço já bastavam os das obras, incluindo o campomaiorense que ainda pensara ir fazer uma perninha no cemitério, no meio da molhada nem se notaria, mas para concretizar tal desiderato seria preciso ir a casa mudar de fatiota, o que seria uma ganda merda. Portanto, não foi. A igreja estava a abarrotar, quase a rebentar pelas costuras se as houvera. O celebrante suava as estopinhas, o sacristão também e dos assistentes nem é bom falar. Todo o incenso, mirra, água de colónia Printemps, perfumes Women & Men, desodorizantes diversos e sabonetes Lifeboy que ali fossem vertidos não conseguiriam anular o odor corporal que da multidão evolava. Nem mesmo a água benta se safava. Alzira: “Era como os três Reis Magos a chegarem ao Perzépio cagados de areia e similares até aos cotovelos. O Segismundo atrás do balcão “Presépio”…


O
 padre “falara mui bem, porra! Até parecia um Bispo!” dissera a Dona Alzira que ainda acrescentara que “nem fora necessário o coiro para encomendar o corpo…” ao que o Segismundo corrigiu “não é coiro, é coro, e isto de encomendar lembra-me os Figueiredos do 4º Esquerdo que encomendam sempre o almoço para que seja levado a casa”. A Menina Hortênsia não gostou “ó home alembre-se – graças a Deus muitas; graças com Deus nenhumas!”

De muito alimento...


F
oi a Dona Ester que deitou mais umas achas para a fogueira: “Além do mais, o prior era lindo! Um homem perfeito. E a irmã dele que estava na primeira fila comia-o com os olhos…” A Dona Leocádia acrescentou “Quem a comia era ele e não era com os olhos. Uma boazona como ela era de muito alimento. E as meninas não podem esquecer-se de que um padre é um homem que tem a braguilha até ao pescoço. A Menina Hortênsia começou a abrir a boca, mas depois calou-se. Graças…





“E
 as flores? Um monte delas, cada um mais bonita do que as outras" sublinhou a Dona Ester, "repararam "na coroa da Companhia onde ele tinha trabalhado, e era apenas porteiro, um mimo, bem como a do Sindicato de que era tesoureiro, uma maravilha, para não falar das que a família tinha trazido (como era sua obrigação)” A Dona Ester voltava à carga “aquele ramo de rosas brancas não dizia de quem era. Seria que o morto teria uma mão esquerda?” E a Dona Filomena que já tinha tirado o avental “mas as Senhoras foram ao funeral ou foram cortar na casaca do falecido?”

A menina dos cinco olhos


E
 foram falando do caixão em mogno, dos acompanhantes, muita gente fina, até políticos e ministros, ele era muito bem visto“, da oração do sacerdote junto à câmbra – campa, emendou mais uma vez Segismundo – “vossemecê até parece a dona Adozinda a minha setôra da escola primária númaro 127, só lhe falta a menina dos cinco olhos qu’ela tinha, a cadeirinha e o içópe” – e de novo o atendedor “o número, a caldeirinha e o hissope” e o gajo zarpou para a cozinha antes de levar com uma cadeira pelas trombas – que o ameaçou a Menina Hortênsia.


P
ara funeral já bastava. Estava quase tudo dito. Ainda havia um tema para abordar: o padre e a moçoila oficialmente sua "irmã" que um dia depois de uma trovoada  tramada tinha comentado para as vizinhas "E eu, se não me agarro ao meu "mano" António tinha caído da nossa cama..." E quando ainda estavam nestes preparos entrou o campomaiorense “Sabem quem esteve por cá? O Pintarolas. Mas, foi uma rapidinha. E então o velório?” E a Alzira “Não fomos. Era muita cera para só um defundo.” E O Segismundo da cozinha “defunto…” E a Menina Hortênsia “Ai levas, levas!” E levantou a cadeira.





2016-11-12

A SAGA DA ALZIRA - 3




  Dentes para bolo de creme


Antunes Ferreira

J
ota Pintarolas, talvez não se lembrem do gajo mas recorda-se, é aquele ganapo que levou na focinheira uma carga de porrada no Restaurante Bar Retiro do Meio Cheio depois de ter bolsado umas alarvidades sobre a Senhora Dona Alzira. O campomaiorense Chico Passarinho não gostou da coisa e foi o autor da punhada que levou alguns dentes ao primeiro e este ao dentista da rua de Cima à de Baixo.


O
Quiçá com um Black  & Decker
 Dr. Malacueco perante o desdentado nem lhe perguntou como isso lhe acontecera, apenas o inquiriu “tem os dentes todos que lhe tiraram?” O busílis é que não tinha. Pintarolas antevia o dentista armado de Black and Decker a perfura-lo até às solas dos sapatos à procura dos desgraçados molares. Estava fodido. Porque na verdade  e quem fala assim não pode er desmentidotrês tinham ficado no chão, caído para as obras, quiçá na sarjeta e no lamaçal e porque se safara com a rapidez possível só no dia seguinte fora procurar os faltosos. Resultado: zero. O odontologista esfregara as mãos, clientes desses havia um na vida e agora era só aproveitar. Benditas chapadas, bendito campomaiorense.

Ó
 meu amigo (o rapazola teria de voltar tantas vezes ao consultório que dentro em pouco já se tratariam por tu) isso resolve-se, só a morte não tem solução. Jota não gostou da frase, pagar e morrer quanto mais longe melhor, mas apenas falou para os seus botões não fora o doutor amofinar-se. “E então, o meu caro amigo já apresentou queija à PSP?” Pintarolas retorquiu-lhe “para quê? Para levar outro arraial de bofatada? Malacueco tentou botar água na fervura “mas sempre tinha alguma coisa a que se agarrar, os tribunais, os advogados, os juízes, a justiça, enfim…”
Justiça? Qué dela? Coroas?


“J
ustiça? Qué dela? O meu senhorio, por acaso um gajo fixe, anda há cinco anos a tentar pôr na rua o manguelas do terceiro direito que vive exactamente por cima de mim – e o doutor deixe-se de sorrisinhos sacanas qu’eu sou muito homem, ainda há de nascer alguém que me ponha a pila no fim das costas – com mulher e sete filhos (aquilo é só foder, parece uma máquina de repetição) e nada. O advogado dele é só recursos e mais recursos e o processo não anda nem desanda. O meu senhorio já meteu umas coroas no bolso do juiz mas creio que foram poucas…


C
orrupção, claro, mas onde é que ela não anda? perguntou-se o odontologista – gostava mais do termo do que se lhe chamassem dentista - Bom, vamos lá ver essa boca que está num estado lixado. Abra-a bem e diga aaaaaaaaaa. Menina Miquelina dê-me o espelho 24.b, o Hollamback e o escavador e deite nessa tina, essa ali ao lado esquerdo do paciente, a solução aquosa com hipoclorito de sódio enquanto eu lhe coloco o aspirador. “Ai, doutor isso magoa! Está-me a arder!” E impassível Malacueco “o que arde cura, quando se meteu na alhada e lhos partiram não lhe doeu?”


N
ão vale a pena continuar a fazer-se o relato integral e directo da partida para a III Liga, Jota - Malacueco que iria terminar com o resultado de 1 a 32, mais parecia râguebi, e 350 euros para o bolso do distinto clínico. Menina Miquelina para a semana haverá mais (para o Pintarolas haveria menos umas massas). Pode marcar no computador sexta-feira, 13, pelas 17 horas. Miquelina que era toda chicha e trazia a bata pouco abotoada, o suficiente para se dar conta através do decote alambazado
Sexta é com s ou com x
que usava sapatos altos de cor vermelha e não usava (para quê?) sutiã, nem calcinhas, santa ingenuidade, perguntou ao médico se sexta era com um x ou com um s?  Não fora o ditame clínico que o proibira de abrir a boca nas duas horas seguintes, Jota teria dito “para si – à sua vontade…” Mas, tinha a boca fechada.


P
assou uma noite lixada, às voltas com os dentes, às voltas sem os dentes, apesar dos comprimidos que o malandro do doutor lhe receitara – vá lá ainda eram participados – e pela manhã que para ele era um quarto para a uma da tarde, decidira ir muito à sorrelfa, não fosse o diabo tecê-las – ao Retiro do Meio Cheio para ver em que paravam as modas e chupar por uma palhinha um copo de leite gelado recomendado pelo dentista, ao que um homem chegara, leite gelado, pffff!... E, já então, deitar um olhar assassino sobre a Alzira, um destes dias pagas-mas, ai pagas, pagas. E como último propósito avaliar como iam as famosas obras para encanar a água local.



N
o que concerne às obras verificou com muita satisfação que tinham progredido aí uns 38 centímetros de comprimento e 29,7 de largura. Boa média para quatro dias de trabalho insano, mais a mais dentro do horário previsto e rigorosamente cumprido. Na esplanada (ilegal) do Meio Cheio encontrava-se repimpado o fiscal dos trabalhos acompanhado por umas cervejolas vazias e uma quase cheia que empunhava, a quem perguntou como iam elas, ao que o homem respondeu “no papo”. Explicou-lhe que “elas” eram as obras não as bejecas. “Vão bem e recomendam-se.
Há cartazes muito mentirosos... 
Esperamos tê-las concluídas lá para os fins de Agosto, se não Setembro…” “Mas o cartaz diz…” “Há cartazes muito mentirosos; já o mandei tirar – serve perfeitamente para acarretar canos mais leves, tipo padiola…”


E
ntrou, sentou-se à mesa do fundo, da Alzira zero, logo nada de olhares assassinos; pediu ao Segismundo um leite gelado o que deixou este de olhos em bico, "O quê?”, “Porra, já disse, um penalti de leite gelado, tás a ouvir ou queres que faça um boneco?”  E deitou os olhos pelo balcão-frigorífico. O atendedor saíra para dar um saltinho à Leitaria Gonçalves, o leite na chafarica tinha-se acabado; e o Jota afinou a pontaria para um pastel de creme que parecia convidá-lo, chega-te cá, chega-te cá qu’eu sou todo açúcar e para não sujar as mãos pegou na pinça para os bolos e avançou, denodado. Mas, uma desgraça nunca vem só. De novo não tinha reparado que entrara o campomaiorense.

O creme não com pinça...


E
ste deitou-lhe a mão ao cachaço enquanto o diabo esfrega um olho. “Olha lá, nunca te disseram que o creme não com pinça? E põe-te a milhas antes que te acabe com os dentes que te ficaram…”  Jota aceitou a sugestão… E saiu como entrara – de mansinho. Nem deitou uma vista de olhos pelo “Correio da Manha”.  Com til.