2017-11-17





Uma loira
e duas morenas
no deserto

As loiras sempre foram motivo para anedotas; mas elas tal como os alentejanos são sempre citados pela burrice ou por ridículas situações que protagonizam mas sem culpa nenhuma. Os gentios é que os usam (os alentejanos e as loiras) para os outros fazerem chicana. Há estórias de loiras por tudo o que sítio. Sendo que não sou adepto de tais anedotas, vou contar um episódio brincalhão sem querer ofendê-las; longe de mim essa intenção.

As loiras ficaram para a História. Muitos os autores que as referiram cantaram-nas de todas as formas. Com trabalho árduo foram limpando maledicência que muitos haviam dito delas e lagartos quanto à alegada burrice e situações ridículas, como atrás o autor escreveu; mas, pelos vistos, a ironia prevaleceu. Continuaram a viver a sua via dolorosa tal como Cristo percorreu até chegar ao Gólgota. Pobres loiras!
Camões escreveu nos Lusíadas, mais precisamente no canto IX, a fábula da Ilha dos Amores, onde os navegautas encontraram as ninfas e começaram a jogar o jogo dos amores com elas; o Poeta fez o verso que se segue, naturalmente apenas um traço para não chatear as nossas leitoras e os nossos leitores. Diz Luís Vaz de Camões

Duma [das ninfas] os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outras as fraldas delicadas.
Acende-se o desejo, que se cava
Nas alvas carnes, súbito mostradas

Camões também conta no seu poema épico uma das mais belas estórias de amor, drama e desgraça, ou seja a de Dom Pedro e Dona Inês de Castro. Apesar de ter casado com Dona Constança Manuel, Pedro, encontrando a loira Inês de Castro, uma das aias da princesa casadoira, apaixonou-se loucamente por ela. Mas a estória teve um final funesto. Irritado com o procedimento do Infante o seu pai, D. Afonso IV resolveu dar cabo de Inês, e os nobres Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco foram à Quinta das Lágrimas em Coimbra e apunhalaram Inês sem dó nem piedade e até na presença dos filhos que tivera de Pedro. O final é ainda pior se é possível.

Pedro tomado dum furor louco mandou executar os fidalgos assassinos arrancando-lhes os corações, os pulmões e os fígados pelo arcaboiço. Pedro que casara secretamente com Inês iria coroá-lo depois de morta, e estando ela já amortalhada obrigara os cortesãos a beijar-lhe o anel de Rainha e declarou o casamento oficial. Luís Vaz de Camões também cantou nos seus Lusíadas o drama horrível:

Inês e Dom Pedro


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano de alma, ledo e cego,
Que fortuna não deixa durar muito.
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas

Do teu príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que menriam,
De dia, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria

Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lactivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela
O cheiro traz perdido e a cor murchada;
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida

Lady Godiva

 Diz a lenda
que a bela e loira Lady Godiva ficou sensibilizada com a situação do povo de Coventry, que sofria com os altos impostos estabelecidos por seu marido. Lady Godiva ter-lhe-á apelado tanto que ele acordou conceder com uma condição: que ela cavalgasse nua pelas ruas de Coventry. Ela aceitou a proposta e Leofrico mandou que todos os moradores da cidade se fechassem em suas casas até que ela passasse. Diz a lenda que somente uma pessoa (Peeping Tom) que por uma frincha da sua janela ousou olhá-la, e ficou cego por consequência. No final da história, Leofrico retira os impostos mais altos assim mantendo sua palavra.


1.           
Agora vá-se à anedota com
Vá-se ao deserto
piada, ainda que ironiza as loiras. Duas morenas e uma loira tinham ido ao deserto, num carro de tração às quatro rodas, para admirar as dunas e os seus movimentos ondeando como se fora num oceano. Mas nem sabiam o que Sol e o calor lhes destinavam, porque o carro pifara, causando-lhes sentimentos desesperados. Sabiam que nas areias do deserto a possível salvação obteriam.

E por desfortuna delas nem um pequeno
Nem um oásis
oásis não viam e miragens nem vê-las! Por mais pequeno que fosse, pelo mesmo caminho iam andando trôpegas, aos tombos e trambolhões que o filho da puta do calor caindo pesado e sufocante abafavam . E de repente uma das morenas parou e atirou-lhes uma sugestão: elas tirassem uma parte do carro Para quê? Respondeu a outra morena já pejada de suor. Foda-se!  Precisas que te explique ou queres que faça um boneco?
 
Adicionar legenda
As coisas estavam a dar para o torto e para evitar uns sopapos decidiram levar uma parte do carro; a primeira morena adiantou: eu levo o radiador, pelo menos bebemos água. E a segunda morena: boa! Eu cá levo o tejadilho sempre nos cobre do Sol. E virando-se para a loira: que levas? E a loira respondeu: prefiro levar uma porta… Caramba! Uma porta!
As morenas entre-olharam-se e repetiram: Uma porta????

A loira já exaltada encheu-se de brios: vocês ainda se vão chorar por mim, faço-vos uma falta; Depois vão chorar na cama. As mornas já irritadas: porra! Não nos fod… digo, trames. Por que raios vais levar uma porta: E a loira: se houver muito calor baixo o vidro da para gozar uma brisa…


2017-11-11

A camija
e o cajaco

Antunes Ferreira
A estória passa-se em Vila Marim que é uma freguesia do concelho de Vila Real de Trás-os-Montes do distrito de Trás-os-Montes (olá isto esta a começar mal, pois lá começam as confusão muito habituais nos textos do autor). A ti Ludovina, solteirona, tinha dois sobrinhos, o Manel e o Quim, jovens, um deles comemorara 14 risonhas  Primaveras, o Manel, o Jaquim ainda as veria chegar. Meio crianças, meio adolescentes eram, desde o tempo das fraldas, companheiros nas diabruras, sobretudo amigos.


Há que dizer que Vila Marim - como todos os Trás-os-Montes – era especializada em castanhas, amendoeiras enchidos e bom vinho, o que aliás acontece em todo País, tinha um orgulho: as amendoeiras em flor eram irmãs gémeas das ditas cujas do Algarve, não tinham invejas adoravam-se e faziam com que os turistas também as adorassem na época das flores.


Asterix e Obelix


 Os transmontanos, gente boa, diziam que para além do Marão só mandam os que lá estão…o que se assemelhava com o Asterix e o Obelix, na sua aldeia irredutível na Gália onde os romanos nunca entravam porque os gauleses possuíam uma poção mágica que lhes dava uma força tremenda e por isso lhes davam umas cacetadas valentes. Porém a acção não decorria na Gália, mas sim em Trás-os-Montes. O seu único medo era que o céu lhes caísse na cabeça e dando de barato que os senhores Goscinny & Uderzo não viviam em Vale Marim, viviam em França. Publicaram o primeiro álbum parido pela parceria em 1959.

Deles está tudo dito, aliás não está porque os heróis deles, ou seja o Asterix e o Obelix, tiveram um enorme êxito com traduções em mais de uma centena de línguas – incluindo o mirandês – línguas e com 350 milhões de exemplares o que é um espanto  assim ficaram de 1952 até hoje. Tal era o entusiasmo que Goscinny ter falecido & Uderzo estar com 87 aninhos (abençoado seja) e logo surgiram sucessores deles. Por isso já estão publicados 33 álbuns e anunciaram estes que para o ano que vem vai sair um novo. Informaram que ano após ano, de 365 a 365 dias poder-se-á um que de modo bem elucidativo um recente álbum dos heróis gauleses virá à escada. Este ano foi publicado o "Astérix e a Transitálica” (não digam nada mas a Wikipédia e uma ajudante …de cinco estrelas)

Amendoeiras em flor
 Como se ia dizendo as amendoeiras em flor são muito fixes. Muitos milhares de turistas são um exemplo das flores brancas que parecem que as árvores estão cobertas de neve. Vila Marim não escapa ao milagre porque o tempo também nela aprecia-se até ao infinito. Também nem tanto ao mar nem tanto à terra. E com os exageros não se vai a nenhuma parte. É como de dizer que o Benfica vai voltar a ganhar a Liga. Se calhar a da Jarreteira…

Vamos lá ver, a clubite e as claques organizadas deveriam ser objecto de sanções. Deveriam… Porém o apito doirado do Senhor P da C deu em águas de bacalhau e parece suceder com o caso dos e-mails ou o da fruta. Enfim isto quer dizer que Portugal é um país muito bondoso… Não sabemos fazer mal a ninguém. Pelo contrário desculpamos toda a malta como se fossemos a conferência de São Vicente de Paulo, abrigamos os que disso precisam iguais à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, resumindo, somos uns gajos à maneira.

Em Trás-os-Montes, em Vila Real, Bragança, Mirandela, e ondas curtas em 17 mHz e outras localidades, os transmontanos são amistosos, amigos e recebem bem os forasteiros. Têm palavras esquisitas; por isso há uma “língua” transmontana… Um cibo (é um bocado) de pão com manteiga, C’massim (assim sendo) vou-me andando até a minha casa, c’moquera (pode ser que) Cuidado! Não te metas e-te com aquele sacana ainda levas uma saranda (um enxurro de porrada), Bilhó (puto) Este bilhó é muito chato.

Bruno & Jesus

Para a gente “normal”, para entender a “língua” transmontana é preciso usar um dicionário; entretanto há o caso do Jorge Jesus que fala tão coplicado que é preciso usar um tradutor de jesusês para português … E se este “mister” fosse treinar uma equipa estrangeira sei lá onde? Por exemplo em Espanha; obviamente teria de levar dois tradutores: um do jesusês para português e outro de português pra o castelhano. Ele há dias em que um cidadão não deve sair à noite.

Bom, volte-se à estória do Manel e do Quim em Vila Marim (tem piada, o autor não deu conta e acabou de poemar) onde o avô deles não tinha um quintal, tinha um quintalão e nele plantara um castanheiro, uma pereira, duas macieiras e uma diospireira maila uma horta de múltiplas hortaliças, couves, feijões-verdes, cebolas, cenouras e outras miudezas: salsa, coentros e hortelã. O avô Florêncio ficava muito contente quando tinha nas férias grandes os dois netos, malandretes como o diabo, também conhecido por belzebu, mas só para os amigos do peito.

Castanheiro


Ora um dia o Manel e o Quim foram-se ao castanheiro e começaram a comer castanhas (normalmente um castanheiro não dá melancias ainda que haja alguns que dão coconuts também conhecidos por cocos, só para contrariar); foi uma orgia castanhal. Enquanto não passavam ao estatuto dos vómitos, os dois bilhós (vejam como o autor sabe falar transmontanhês, do que muito se orgulha)  começaram a trocar mimos ainda empoleirados nos ramos da árvore transmontanhesa.

O Manel para o Quim: ó Quim eu cá comi mais castas docatu; o Quim para o Manel: ó Manel quem comeu mais delas fui eu. Pronto, fora o início duma discussão que terminaria assim: Ó Manel ê cá comi-as com camija e outro retorquindo: Porra, e ê comi-as cucajaco. A divisão deles  persistia … e persiste até aos nossos dias.

      




2017-11-06





Antunes Ferreira
Ladislau saiu da oficina com um carrinho de mão coberto com um pano cinzento. Há pouco o Movimento dos Capitães tinha cantado vitória; pela cidade o povo saía à rua batia palmas, enchia as ruas de Lisboa, nas mãos cravos vermelhos 
e nos canos das espingardasgritava Liberdade! No Largo do Carmo apinhado de gente, Sousa Tavares, o Tareco, com um megafone na mão como se fora o comandante civil da multidão eufórica, protagonizava o entusiasmo louco dos Portugueses, no alto do coreto que ali havia (e ainda há).

O herói Salgueiro Maia


Salgueiro Maia, vindo do Terreiro o Paço, posicionara-se diante do quartel da Guarda Republicana e das ruínas do convento do Carmo, tentara aceitar a rendição de Marcelo Caetano e de outros ministros da ditadura imposta pelo Salazar que se tinham refugiado no quartel. Mas o pulha do Marcelo dissera-lhe que queria um gajo de categoria, porque não se renderia a um apenas capitão. Salgueiro ainda pensou em ir-lhe às trombas, mas pensando melhor mandou buscar o Spínola pois o monóculo dava-lhe um ar de diplomata ou de nobre.

Maia resignou-se. Finalmente o Marcelo e parte da sua quadrilha saíram numa chaimite muito encolhidinhos, mais parecendo sardinhas em lata mas em tomate. Diz-se que foi aí que apareceu a expressão com tomates ou sem tomates aplicada aos homens; disse-se depois que o mais acagaçado era o Silva Cunha, mais tarde recuperado pela jovem democracia que ainda usava fraldas descartáveis.

Sem legenda


Nessa altura abundavam os vira-casacas, mas usando apenas uns miseráveis casacos, alguns dos quais em segunda mão e aí começou a falência do Anahory. Advertência: isto é uma interpretação pessoal e abusiva pois que uma data tão importante que até deu feriado como o Dia da Liberdade que o Passos Coelho e sobretudo o Portas por falta de tomates em especial o segundo, não conseguiram abolir. A troica ficou muito fod, … oops, chateada pela desobediência (que nunca mais se verificou) à Autoridade, digo Austeridade, 
Autoridade, oops, austeridade
ameaçando que se ela não fosse cumprida não viriam mais os carcanhóis emprestados com juros muito grandes, pelo FMI e pelo BCE (alguém tinha de lucrar…com a negociata, aliás muito “bondosa” e “amistosa”) 

Ai aguentam, aguentam


Foi o tempo do PREC. A História tem que lhe diga e embora eufótica deu muitas dores de cotov…, perdão, deu muitas dificuldades aos portugas (é bem certo o rifão quando o mar na rocha quem se lixa é o mexilhão) que foram apertando o cinto embora o (fdp, por extenso filho da puta) do Ulrich tenha ladrado “ai aguentam, aguentam) com o miserável propósito de achincalhar os cidadãos vítimas da austeridade. Aí, sim, umas galhetas bem dadas, só se perdendo desgraçadamente as que caim no chão.

As estórias da História são muitas, umas boas, outras dramáticas, ainda outras medíocres, que se podem enumerar, delas fazer percentagens, retirar lições e ilações que por vezes são até mesmo mentiras e fantasias que mais tarde serão descobertas e por isso terem finais desagradáveis. Porém as estórias podem ser contadas com e por seu turno há que ter em conta com rigor que História merece e exige; estórias há muitas – a História é única em cada país.

Já basta de considerandos e adversativas; voltemos então ao nosso Ladislau com o seu carrinho de mão coberto por um pano cinzento. Para não se ver o que levava? Gato escondido com o rabo de fora… O tipo lá ia andando com o apetrecho carrinhal. Só parou numa tasca para comer uns caracóis e dois copos de três; não tinha tomado o pequeno-almoço e começavam os intestinos a dar horas: Poças, um homem não é feito de pau aliás é muito diferente de um homem com o pau-feito…
Bate-sola



Depois de confortado, Ladislau retomou o andar com o carrinho, etc. Mas lembrou-se que tinha de ir ao sapateiro pois deixara uns sapatos para substituir as solas porque estas já estavam muito gastas e já até um dos pares tinha um buraco. Tinha dois pares de chancas e um estava a usa-los e outro… no bate-sola. Pedira ao artífice que pusesse meias-solas.  Por isso desviou o caminho par ir busca-los e se calhar deixava os que usava e calçava os outros. Com a austeridade, um gajo tinha de se desenrascar.

O sapateiro nem lhe levou muita guita, fez-lhe um bom preço que aliás o Ladislau contara por alto e saíra-lhe uma pechincha. E já que estava no sapateiro decidiu passar pela casa duma prima que vivia precisamente no primeiro andar por cima da loja. Tinha todo o tempo do Mundo e o destinatário do que levava no carrinho de mão, etc. trabalhava à noite pois era padeiro e objecto que ele usava só o usava nos-de-semana na casa do campo. Mordomias de padeiro… e sempre lhe ia dar umas carcaças pois era um gajo fixe.

Simone assumia as suas rugas


Assim fez. Já com os pães bem cozidos e depois de dar à língua com o panificador voltou a caminhar. Ia assobiando o “Sol de Inverno” que a Simone cheia de rugas continuava a cantar. Gostava dela porque assumia as suas rugas, não as disfarçava com maquilhagem, muito menos com o “maravilhoso ácido glicólico” muito publicitado em todos os médios desde os jornais e revistas, nos rádios e nas televisões e agora na Internet e nas redes sociais.

Sentinela bem acordado...


Para chegar ao destino do cavalheiro que tinha encomendado o objecto que ia tapado com o pano cinzento, tinha de passar por diante do Quartel Geral da cidade. E aí se deu o drama. Drama? Sim senhor. A sentinela (bem acordada) ao portão de armas chamou-o. Relembro que se estava no PREC e as suspeitas eram mais do que as quotidianas. Ó camarada o que é que leva nesse carrinho. “Adivinho” que são armas para os reaccionários. Ora diga lá meu menino se são ou não são.

É áá…gu…gu…a…a. Com quem então é agua … Ó chico esperto!. Julgas que eu sou um anjinho, sem asas…Eu não enfio barretes!... Vem ali para dentro do quartel e vais ver com quem te meteste!!! E assim aconteceu, veio o oficial de dia, o sargento de guarda e vários magalas e deram-lhe um enxurro de porrada de ficar um chapéu dum pobre. Depois com o Ladislau cheio de hematomas e uma perna ao peito; em fim destaparam o que ia no carrinho de mão. Era uma bomba de tirar água! I Ladislau estava mudo e quedolambendo as feridas como se fora um cão

bomba de água
Ó meu camelo desculpa lá; podias dizer logo de entrada que era uma bomba de tirar água e safavas-te deste arraial de cacetada… E oficial de dia continou a falar com o gajo que levava uma coisa que, afinal, era uma mera bomba de água, muito vulgar há uns tempos atrás, normalmente são eléctricas. E o oficial continuava: Reacionário? Mas és um pobre diabo amarrotado. E o Ladislau que era gago. Sse eu..eu..diss…esse…se qu..ee ee.raa uma..a bom..bomba já nem d..dizzi-ia áa..gua…aa.
  
 






     

2017-11-01

A mana (????)

do padre

 Francisco

Antunes Ferreira
Vitorino Ximenes dos Santos montou-se na bicicleta com que ia e vinha de casa para Gaia, onde se encontrava a primeira fábrica de cortiça do Senhor Amorim na qual era operário, meteu os pés nos pedais ajeitou o traseiro no selim e seguiu para Arcozelo onde vivia com os pais e duas irmãs mais velhas do que ele, pois era o último da família, a que os brasileiros chamavam caçula. Mas por que bulas diziam os brasucas caçula? Metera aquela interrogação, na cachola e decidira fazer a pergunta ao ti António que era um sabichão e vivia na praia da Aguda Tinha a certeza que o “Mocho” – assim chamavam ao gajo porque dormia de dia e saía à noite para fazer a ronda das tabernas e comer umas gajas fixes, muitas delas casadas, mas naturalmente sem os respectivos …saberem, o corno é na verdade o último a saber – o esclareceria.

Os pais Santos tinham cinco filhos e nove filhas. (No futuro lá longe haveria uns sacanas que diziam que eles não tinham televisão – daí a prole pois à noite o casal entretinha-se na cama… Eram, portanto, especialistas em brincadeiras entre lençóis, como manda a decência e a Santa Madre Igreja; e a mãe tinha uma devoção à Nossa Senhora da Conceição. Mas conceições havia muitas e padre Francisco que vivia com a irmã, justamente Maria da Conceição, até se chateava e muito, quando ironicamente diziam: irmã(?????)   

II Guerra Mundial

Corria o ano de 1939 - nascera em 18 de Fevereiro de 1923 - e tinha começado um arraial de porrada entre os aliados e o eixo, assim a modos dum Portugal-Espanha com muitíssimas mais galhetas. Era a Segunda Guerra Mundial. Em Arcozelo não ligavam peva à cacetada. Por virtude da Nossa Senhora de Fátima e também do Senhor Presidente do Concelho de Ministros, doutor António de Oliveira Salazar, a guerra não chegava a Portugal que era neutral e muito menos a Arcozelo onde o pessoal nem sequer conhecia a malta que andava à bordoada. Por vezes, uns cidadãos, poucos, ouviam umas coisas sobre as batalhas na BBC onde o senhor Fernando Pessa dava notícias todos os dias, mas o resto do pessoal não ligava nem à rádio nem à guerra. Que se lixassem!

Praia da Aguda


Vitorino tinha dezasseis anos, mas começara a trabalhar quando saíra da escola em 1932. Não, a família não era pobre, era mais para o lado da remediada, o pai era marinheiro na praia da Aguda e a mãe era costureira em casa, mas para fora. Sete das irmãs e os quatro filhos mais velhos já tinham saído do ninho, umas e uns tinham casado no Mosteiro de Grijó onde fazia um frio do carago e quem lá ia tinha de usar roupa de aconchego no Inverno, mesmo no pino do Verão tal era frialdeza, que alguns até levavam sobretudo. Algumas tinham ficado solteiras à espera de chegarem a tias solteironas.  

Entrementes, das rolhas de cortiça, o Vitorino queria transferir-se para a pesca, mas quer a mãe quer o próprio pai lhe tinham dito que o mar era traiçoeiro, muito melhor era sentir os pés apoiados na terra. Por isso, depois de ter começado por ajudante de pedreiro, passara para uma mercearia, estava chateado de andar com cargas às costas, o primo Luís arranjara-lhe um lugar na fábrica da cortiça. Era um emprego bom, primeiro via os outros trabalhadores a cortar rolhas, ia aprendendo e já era terceiro oficial.


Um dia, o padre Francisco avisou as suas ovelhas que ia ser colocado na igreja de São Bernardo, em Portalegre, e Vitorino que ia todos os domingos ia à missa porque o dia do Senhor tinha ser respeitado - dizia a mãe Olinda, aproveitou o ensejo e em vez de perguntar ao “Mocho” por que diabos os brasileiros diziam caçula foi ao padre Francisco de malas já feitas pôr-lhe a pergunta. O sacerdote dissera-lhe que do Brasil só conhecia a Carmen Miranda, que ainda por cima era portuguesa. E o rapaz, mesmo sem ser marinheiro, ficara a ver navios. Na verdade Vitorino acabara por ficar muito chateado. Mas regalou-se com um pensamento: ele já tinha a bicicleta e o clérigo andava à pata. Resultado: 1-0.

daquelas fluorescentes


Deixe-se de seguir o Vitorino Ximenes dos Santos faça-se a linha para o mui digno cura, que aliás nunca curara ninguém, mas isso eram negócios da Igreja de Roma, onde o Santo Padre também não era muito afim de curas. Parece que essa especialidade era da Senhora de Fátima, não desfazendo na Santa Conceição, que  não metia o bedelho no tema. De resto, Fátima era mais para a banda dos negócios dos terços, das velas, dos crucifixos, das imagens, fluorescentes que luziam à noite sem serem ligadas às tomadas de corrente; isso sim era um mistério dos verdadeiros. De resto, a Santa Conceição estava muito conotada com o  faça sol e chuva não, no Verão, e no Inverno  trocavam-se as voltas como no vira.

Feira das cebolas

O Padre Francisco com a irmã (????) chegados a Portalegre foram em busca de casa já que a paróquia não tinha instalações para o presbítero. Arranjaram uma na rua de Infantaria 22 que dava para a praça da Corredoura e nas traseiras de várias habitações havia um pátio comum onde as vizinhas coscuvilhavam diariamente. A casa de rés-do-chão e primeiro andar era acolhedora e o padre Francisco maila sua mana (??????) sentiam-se porreiraços nela. As manhãs de corte-e-costura das vizinhas eram bem conhecidas. Nisso, ninguém levava a palma à Olinda

Pirolito


Portalegre estava (e está) situada nas fraldas da Serra de São Mamede, daí que dela venha uma frialdade fod,… oops, lixada no Inverno e por vezes também no Verão, na Primavera e no Outono. Os portalegrenses naquela altura usavam (e ainda agora usam) muito as braseiras com as suas camilhas ou as lareiras em especial nas cozinhas de tripés e caldeirões de ferro. Do outro lado da rua havia a fábrica de pirolitos. Quando estoirava um deles toda a miudagem acorria para apanhar os berlindes. Jogar ao bilas era entrenetimento, principalmente no sem piras são três.
eixo, ribaldeixo



Aliás as brincadeiras dos putos eram muito escassas. O bilas com abafador; o eixo ribaldeixo, caramelo ou pau do eixo, uma, bruma, duas, batas cruas, três pulinhos holandeses, quatro, bolo de arroz faz o pato, cinco, maria do brinco seis,. reis, sete vira a folha ao canivete, oito, biscoito, nove, dá dez réis ao pobre, dez, comichão nos pés, onze, bronze, doze, palmada, estás perdoado, três ,e meia bem cheia, catorze, atira o boné, quinze, apanha bonés, se não fazes assim, perdes e serás o próximo a abaixar!
Cuscas


O Padre Francisco com a irmã (????) chegados a Portalegre foram em busca de casa já que a paróquia não tinha instalações para o presbítero. Arranjaram uma na rua de Infantaria 22 que dava para a praça da Corredoura e nas traseiras de várias habitações havia um pátio comum onde as vizinhas coscuvilhavam diariamente. A casa de rés-do-chão e primeiro andar era acolhedora e o padre Francisco maila sua mana (??????) sentiam-se porreiraços nela. As manhãs de corte-e-costura das vizinhas eram bem conhecidas. Nisso, ninguém levava a palma à Olinda

     
 
Zona de trovoadas
   


Epela sua situação geográfica é zona de trovoadas vindas da serra. Uma noite houvera uma das grandes que até aterrorizaram as gentes. Os trovões e os relâmpagos tinham sido constantes, só amainando um pouco já chegava a manhã. Só então as vizinhas comentavam o temporal. A dona Pulquéria começara por dizer que o medo dela e do seu homem levaram-nos a esconder-se debaixo da mesa da sala de jantar. A Deolinda que era viúva refugiara-se por baixo da cama.



Todas foram contando as peripécias nocturnas, umas mais amedrontadas do que outras, uns discursos de lamurias, de cagaços até que chegou a vez da irmã (????) do Padre Francisco: “Ai vizinhas apanhei um susto tão grande que, se não me agarro ao mano Francisco, estive quase a cair da cama…” A confissão da mana (????) foi como um maná caído do céu e deu aso a conversas para mais de um mês. “..se não me agarro ao mano Francisco, estive quase a cair da cama…” correu por toda a cidade e foi alvo de galhofa. Até na Serra de São Mamede...

       


   


2017-10-26



Um pesadelo
horrendo

Antunes Ferreira
Foi dum pesadelo, a depressão bipolar, que consegui sair e quase não acredito que bastou um clique para aparecer a recaída e outro clique para recomeçar a viver… Sejamos claros: durante quase um ano em Lisboa e Goa e de novo em Lisboa fui uma pedra de basalto sem ligar ao que se passava à minha volta, à minha família, às minhas Amigas e aos meus Amigos que sempre, mas sempre! me empurraram para um caminho ressuscitado. Nunca lhes poderei agradecer.
Não há rosas sem espinhos

Mas mesmo assim faço-o do fundo do coração, sabendo que nada valho, intercalado com um muito obrigado. A vida é madrasta e não há rosas sem espinhos, nem semente semeada que dará em tempo oportuno o fruto da felicidade. Porém quase um ano não a consegui desatar de um silêncio desumano, 
marmóreo e tumular.



...descer aos infernos
Donde quero uma vez mais sublinhar os resultados que consegui alcançar e chegar aos objectivos mais consentâneos e resumidos no que o povo diz – esta vida são dois dias. Contudo o ano horribilis durou pelas minhas contas 303 dias. Um tsunami bipolar é mais do que descer aos infernos sem saber que os podia deitar fora pela janela aberta da felicidade e da euforia que queria voltar a desfrutar.

Perdoem-se leitores este desabafo que é mais confissão; embora não tenham sido parte duma dor que senti na pele e na carne que não me era possível sair desse nevoeiro sem cavalo branco nem sebastião, sempre estiveram comigo nas horas mais más. Repito: a vida é madrasta e o contar dos dias desanimados e trucidados por mor de uma maleita indescritível é uma vereda negra que nos amarga os meses ´perdidos dum calendário também perdido e lancinante.


A Raquel e eu


Hoje fico-me por aqui na companhia duma Grande Mulher de nome Raquel que me acompanhou como sempre me acompanha nos dias mais ácidos duma doença que nos tira o amor à Vida. Depois no sábado virão os filhos e as filhas/noras e os netos e a neta que são para mim os melhores do Mundo. Do Mundo? Do universo sem buracos negros nem cassiopeias mas estrelas brilhantes que nos dão o alento para alcançar o objectivo mais ansiado - viver.

  

  





2017-10-20


  




Antunes Ferreira
Sem sequer um sobressalto, um solavanco, o carro caiu ao rio mesmo ao lado da estação Transtejo-Seixal. Dentro dele um casal que sem tugir nem mugir nem se deu ao luxo de usar o travão. Caíram, apenas caíram, num baque redondo e surdo e imergiram A malta que esperava o barco e tinha gritado Cuidado! Cuidado! Ainda se dá uma tragédia! E deu mesmo!

Foi suicidado o dito cujo casal e o VW Golf também o foi. Resta agora saber quem os suicidou. Facto provado foi um acto que se tratou de um autossuicidado ou dum suicidado-auto. Até pareceu o Rali de Portugal. Face à desgraça em Palmela a Autoeuropa mandou que a bandeira da VW fosse posta a meia haste. Durante toda esta salgalhada, a inconstante Constança pediu a demissão aceite pelo primeiro-ministro à velocidade de 1456,17 km/hora. O Inimigo Público informou que consta que a Madona se propôs substituir a admitida demitida. 

Guardar o anonimato...

Perante este verdadeiro riomote, só restou ao autor investigar o que realmente teria levado ao autossuicídio. De acordo com fontes muito bem consideradas, e muito conhecedoras do tema as, ouvira os mergulhadores da Administração do Porto de Lisboa, os senhores José Monteiro Nicolau e Segismundo Oliveira da Serra que pediram o anonimato  o qual foi aceite imediatamente pelo autor. De acordo com eles a versão da estória que se segue é fundamental. E voltaram a mergulhar; ninguém os  suicidou.


... fazer um aborto...


A estória do casal suicidado é triste. O malandro no meio de uma brincadeira mais animado engravidou a moçoila, e propôs-lhe fazer um aborto; ela respondera-lhe: nem pó! A criança ver ser um filho da mãe com o orgulho dela e completara a afirmação – não aborto, não aborto, não aborto!!! E terá mandado às urtigas o malvado proponente. Houvera uma grande discussão e no final desta chegaram à conclusão  que alguém os suicidaria. E zás! Tejo para os três: o casal e o Volkswagen Golf.


Batalha de São Mamede

As dificuldades acentuavam-se e quase em desespero decidiu o autor procurar documentação: o Compêndio das estórias da História de Portugal e de outros países  que foi o que mais o ensinou. Não muito longamente para evitar a deserção dos que ainda me aturam aqui fica uma súmula dos que foram suicidados. Logo no início da cena, Afonso Henriques suicidou Dona Tareja na batalha de São Mamede. Um país que começou com um filho a bater na mãe não é, não pode ser uma grande espingarda.

Conta-se que o futuro rei de Portugal durante a porrada terá bradado Trava! Fernão Peres de Trava! quisto aqui não é o da Joana! È do Afonsinho! E o conde galego travou
 TravaTrava!!!
mesmo. E por isso voltou para a Galiza com o rabo entre as pernas porque o infante o suicidara. Vergonhas. Vamos encontrar na conquista de Lisboa aos mouros um bom exemplo dos antecedentes dos suicidados, pois um carro de bois dos cruzados ingleses que ajudaram o príncipe caiu ao Tejo e com o peso das malhas de ferro e das armadoras os seus ocupantes foram suicidados. 



Luis XVI à rasca na guilhotina


Muito mais exemplos poderia o autor aqui registar. O rei Dom Caros igualmente foi suicidado pelo Buiça; foi o regicido. Quanto a outros países encontrámos na Inglaterra o Martinho Lutero que, além de ser o reformador, foi reformado e suicidado em Londres. Da Revolução Francesa nem é bom falar: foram suicidados mais que muitos numas guilhotinas que se conhecidas como máquinas de fazer suicidar cabeças. Destaca-se a do rei Luís XVI. Ponto final parágrafo; na outra linha.


O Senhor Morte
Volte-se entretanto para a pergunta do título: quem os suicidou? Todos se recordam do mister Jack Karkovian, o Senhor Morte, e da sua máquina da morte ou seja do suicídio assistido. Por isso ficou mundialmente conhecido. Se se fala de suicídio assistido, a máquina de suicidar salta à arena. Vejam: se se tratasse de máquina de costura Singer ou a de picar carne Moulinex, estas não teriam a publicidade que tem a do Jack - e são também suicidoras. Das chitas e do algodão aos hambúrgueres e almondegas  elas também são gente! Só que a sua dimensão publicitária não tem o mesmo impacto. Mesmo assim pergunta o autor: assistido por quem? Será preciso que a assistência deva pagar bilhete?


A diferença entra...


Estas congeminações têm que lhes diga porque sempre houve, há e haverá discrepâncias entre os suicidados homens e mulheres. Porque será que se pergunta, meus Amigos, qual a diferença entre homens e mulheres? Óbvio: a diferença entra…

No entretanto prossegue o drama: quem os suicidou?  Em boa verdade não sabe o autor responder. A tentativa felizmente abortado do aborto? A Autoeuropa? A propaganda ao Senhor Morte? O Fernão Peres de Trava que travou? O nosso primeiro rei? Tem o autor apenas uma suspeita que não se exime de aqui exarar; não se julgue o faça pelas sete chagas do Cristo. Nunca o faria! Mas aquele namorado do polícia??? Acha o escriba que é uma singular coincidência a estória do cívico estar a falar com ele no Smartfone: quiçá fosse uma ordem peremptória do gajinho: deixa-te de tretas e diz ao casalinho que vá pró cara..., ops, se autossuicide Cheirou-lhe a esturro, mas nada pôde concluir. Os queridinhos dos agentes da PSP, sobretudo dos que falam ao smartefone são muito capazes disso. E de muito mais. Diria o Senhor doutor Perry Mason: o que é preciso são factos; sem eles não se pode culpar quem quer que seja, 
Na Faculdade de Direito da UL
Na Faculdade de Direito de Lisboa onde o autor fingiu que andava a estudar falava-se muito sobre o contraditório e não pôde obviamente ouvir a outra parte, pois estava toda molhada. Os rapazinhos dos senhores guardas, sobretudo os que andam de giro, apesar que se defenderem na presunção da inocência calam-se por mor das moscas...  Tantas
 chatices, tantas consultas, tantos compêndios, tantas investigações e no fim – niente. Pede o escriba as mais sérias e sinceras desculpas àqueles que esperavam uma resposta. Mas como é sabido, o autor é pluriverdadeiro, repudia a mentira e quem a apoiar; é como o azeite que vem sempre ao cimo da auga. R.I.P.
 
 
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